Mar 12, 2012

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Frente fria, literatura aquecida

Frente fria, literatura aquecida

O oitavo número do Jornal Cândido – publicação da Biblioteca Pública do Paraná – traz excelente matéria assinada por Mariana Sanchez sobre a literatura curitibana contemporânea, sem esquecer de fazer menção importante aos escritores da nossa tradição.

Pequena biografía de desejos aparece como a nova cara do romance curitibano. Ao falar sobre a tradição da cidade em produzir contos, a matéria faz a seguinte ponte para se referir ao romance: “‘Por outro lado, a cidade nunca teve tradição em narrativas longas, o que começa a mudar com o sucesso das obras do Cristovão Tezza. Talvez, agora, sua presença marcante no mercado editorial impulsione o surgimento de uma geração de romancistas’, supõe (Luís Henrique) Pellanda, citando como um possível primeiro fruto o romance Pequena biografia de desejos (7Letras, 2011), ótima estreia do curitibano Cezar Tridapalli”.

Para ler a matéria na íntegra, basta clicar aqui e ver quantos autores têm feito de Curitiba uma cidade fértil em criação literária. Para conhecer as outras edições do Jornal, é só clicar aqui.

Jan 24, 2012

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Os desejos adormecidos que a literatura desperta

Os desejos adormecidos que a literatura desperta

A revista Ler & Cia, das Livrarias Curitiba, na sua edição 42, de janeiro/fevereiro de 2012, traz interessante análise de Pequena biografia de desejos. Você pode conferir a breve resenha diretamente na revista, em sua versão on-line ou impressa, na página 15 (para ver a versão eletrônica, clique aqui). Abaixo, o texto publicado lá, de autoria de Mariana Sanchez:

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Os desejos adormecidos que a literatura desperta

Há uma grande diferença entre um forte militar e o balcão da portaria de um edifício residencial. Não, porém, quando estes lugares são defendidos por homens como o tenente Giovanni Drogo e o porteiro Desidério Santos dos Santos. Protagonista do romance de estreia do curitibano Cezar Tridapalli, Pequena Biografia de Desejos (Editora 7 Letras, R$ 39), Desidério é a versão contemporânea do personagem de O Deserto dos Tártaros: sua vida pode ser descrita como uma longa e solitária espera, um infinito desperdício.

Não é à toa que cito aqui o clássico de Dino Buzzatti. Na ficção de Tridapalli, esta é a obra inaugural da biblioteca de Desidério, formada por exemplares chamuscados que sobreviveram ao incêndio do apartamento 602. O tesouro não apenas lhe traz à lembrança a velha vertigem da juventude, diante das prateleiras da Biblioteca Pública do Paraná, como também inaugura seu mais novo desejo: tornar-se um escritor.

Mas, ao contrário do texto de Tridapalli, o romance secreto que Desidério escreve durante as madrugadas na guarita não se desenvolve, à semelhança de sua própria vida. Suas relações afetivas conseguem ser menos estimulantes do que o trabalho de vigia – da esposa Macária, quase invisível, ao tio militar capaz de invisibilizar qualquer interlocutor; da mãe que desaparece no dia de seu aniversário ao pai que começa a desaparecer lentamente, primeiro mudo, depois cego, por fim imóvel.

Enquanto isso, a literatura vai se convertendo na única chance de viver algo autêntico, apaixonante. Quando conhece Adele, a leitora voraz do 301, o romance de Desidério ganha novo ritmo, porque movido pelo desejo – do latim, desiderium. E é deste sentimento que nasce esta pequena biografia, originando também este grande livro.

Mariana Sanchez é jornalista, redatora publicitária e idealizadora do projeto de incentivo à leitura, Orelha do Livro: www.orelhadolivro.com.br.

 

Jan 23, 2012

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A metaliteratura em “Pequena biografia de desejos”

A metaliteratura em “Pequena biografia de desejos”

“Less alone” é a resenha sobre Pequena biografia de desejos escrita por Arthur Tertuliano e originalmente publicada no blog O leitor comum.
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Num artigo do TheNew York Times, li as seguintes frases: “Think about it: I can love you because I want to feel less alone, or I can love you because I want you to feel less alone. But only the latter requires me to imagine a consciousness independent of my own, and equally real.”
Ela resumiria, mais ou menos, duas formas de encarar a escrita de romances atualmente. Respectivamente: uma em que o autor deseja se expressar, de forma a se sentir menos sozinho no mundo – com o devido auxílio dos leitores que com ele se identificam; e outra em que ele tem a intenção de que seus leitores se sintam menos sós. Além disso, afirma que só a segunda forma de escrita requer que o escritor se posicione no lugar do outro – imaginando-o, independente e real.
Voltaremos ao tema mais adiante.
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No dia 29 de março de 2011, K. me convidou para o lançamento do romance Pequena biografia de desejos. O autor tinha sido seu professor de literatura no ensino médio. O evento era em uma livraria charmosa daqui de Curitiba. Mas eu mal havia começado o curso de Letras e estava empolgadíssimo com a leitura da Ilíada de Homero. É a minha segunda aula favorita, disse no e-mail de resposta. De qualquer forma, sem maior interesse pelo livro, minha presença no evento seria apenas mais uma forma de ajudar a encher de pessoas o lançamento de um jovem autor paranaense. Praticamente não houve disputa entre o clássico e o contemporâneo.
Já no segundo semestre do ano, a disputa pendeu para o outro lado: perdi a primeira semana de aulas para estar presente nos eventos noturnos da Semana Literária do SESC-PR. No dia de que mais gostei, reencontrei Marcelino Freire (e comprei seu último livro para pegar um autógrafo) e revi muitos amigos. Despedi-me umas quinze vezes, mas sempre encontrava alguém novo e engatava uma conversa. Mais ou menos entre a oitava e a nona despedida, uma amiga chamou-me para falar com um escritor – pouco antes eu confessara que não tinha coragem de tentar a abordagem Tenho um blog literário e gostaria de ganhar um livro para resenhar. Ela já o havia convencido a me dar um exemplar de seu romance.
Não o reconheci pelo rosto, mas sim pela capa de seu livro. Prometi lê-lo, resenhá-lo e, caso não gostasse, enviar meu texto para o blog do Meia Palavra, ao menos. Publicar a resenha originalmente n’o leitor comum já diz alguma coisa.

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Ah, a metaliteratura. Costumo amá-la, ainda que nem sempre funcione comigo. O abuso e o mal uso de certos recursos literários – ou a simples falta de um maior exercício da imaginação para diferenciar a persona (muitas vezes, o narrador) do próprio autor – me cansam às vezes. Sempre tento descobrir a razão para “acreditar” em determinado livro e em outro não, ainda que ambos utilizem expedientes muito parecidos, mas isso é bem difícil às vezes. Um exemplo. Vejamos o quanto de “mundinho literário” há em Pequena biografia de desejos (a lista não é exaustiva): * Personagem que quer escrever um livro [X] * Personagem que sofre ao escrever [X] * Personagem que é leitor voraz [X] * Personagem culto [X] * Citação de autores canônicos [X] * Citação de autores mais obscuros [X] * Citação de livro famoso com o qual o livro em questão possa ser comparado [X] * Dúvida a respeito duma parte do livro poder ter sido escrita por um personagem [X] Nenhum desses elementos é particularmente novo e nenhum deles é intrinsecamente um mérito ou demérito do romance. Livros que os contenham podem ser brilhantes ou não dizerem nada de novo. Como eu poderia justificar ter gostado desse romance e não de outros muito parecidos? Aqui me remeto à citação que abriu esse texto. O autor parece escrever para que o leitor se sinta menos só no mundo. E mais do que isso: para que o leitor tenha companhia e veja o “outro”, o autor imagina este (ou o estuda e pesquisa – não estou interessado exatamente no processo de criação literária) e o põe no papel. Tentarei explicar o que quis dizer com o parágrafo anterior. Há três personagens principais: um professor de literatura, uma mulher que estudou muito a literatura italiana e um porteiro de prédio – o protagonista. Este herda uma biblioteca fruto de um incêndio (ainda legível) no apartamento daquele, possui estranhos hábitos com relação às suas leituras – uns leem andando; ele anota seus trechos favoritos embaixo do balcão da portaria –, se apaixona pela bela moça que fala italiano e quer escrever um livro. Desidério é o nome do moço. No próprio romance, vemos certos caminhos mais fáceis, devidamente evitados. Para os que adoram um tom confessional – “ah, ele fala disso porque ele viveu isso mesmo” –, o professor de literatura poderia muito bem ser o protagonista da obra. Meio mau-caráter e pseudo-intelectual, ele é relegado a um segundo plano, no entanto. Além disso, o leitor poderia se identificar mais com a moça bonita, inteligente, viajada e cativante – e, assim, não sair de sua zona de conforto e distração: “Uma ratinha de biblioteca. Leitora de literatura desde pequena, teve uma longa fase da vida, da infância à juventude, na qual se incorporava aos personagens que lia. Durante algum tempo, caminhava pela casa como se fosse Alice; durante outro, como se fosse Emília; durante outro, G.H.; ora, Dorian Gray. Era uma espécie de Zelig da literatura. A brincadeira consistia em se fazer passar por personagem durante o maior tempo possível, o que, entre outras coisas, lhe custou a obrigação de frequentar psicólogos behavioristas durante quase seis anos”. Mas a moça, além de crescentemente intrigada (e interessada) por Desidério, também não é o foco da narrativa. Um best-seller apostaria nas outras duas figuras; a adaptação cinematográfica talvez resgatasse o terceiro elemento a fim de explorá-lo como alívio cômico. O protagonismo personagem mais simples, em quem não prestaríamos atenção na calçada ou no ônibus, causa certa estranheza. Mas, aos poucos, nos permitimos que nos identifiquemos com Desidério: tão diferentes e tão parecidos. Ele tá sozinho na portaria, lendo, enquanto você está sozinho em algum canto, lendo. O personagem, dolorosamente crível e real, faz companhia ao leitor. Vejamos, por exemplo, uma cena em que Desidério pega um livro: “O primeiro livro do novo acervo, que Desidério, depois de muito tempo, escolheu, foi O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati. Chamou a atenção, mais do que o título e a curiosidade de saber o que poderia ser um tártaro – já ouvira a palavra, presente em propagandas de pasta de dente, mas não conseguia imaginar a história –, o fato de, no alto da capa de sua edição, estar escrito, em letras maiúsculas, GRANDES SUCESSOS DA LITERATURA INTERNACIONAL. Acima, ainda, o ícone de uma máquina de escrever, responsável por plantar de modo muito sutil, imperceptível, as primeiras ideias de também ele ser escritos, mas lançou-se em uma aventura imaginária e difusa. Ficava admirado por alguém conseguir tirar da cabeça – essa caixa minúscula – tanto assunto. Desidério não tinha nenhuma noção de enredo, personagens, trama. Eram palavras que já poderiam ter sido ouvidas, mas não faziam parte, nem de longe, do cardápio disponível para ele. A capa tinha fundo rosa e, debuxado, o desenho que mostrava uma montanha, em cima da qual havia um castelo. Abaixo da montanha imensa, no primeiro plano, um cavaleiro, montado, seguindo caminho. Se a capa já havia sido responsável por tantas digressões, Desidério ficou faminto pela história que a capa prometeu revelar, linha após linha, página depois de página. Se o cavaleiro da capa precisava de forças para subir a montanha e chegar ao castelo, também ele investira suas forças para singrar o mar de letras, imagem que Desidério adorava evocar, desde quando viu pela primeira vez o oceano de livros da Biblioteca Pública.” Talvez isso seja pouco para justificar que eu tenha curtido a leitura: um protagonista atípico no mundinho literário, essa vontade de conhecer a vida dos outros, que também podem se encantar com capas de livros e com o oceano de uma biblioteca. O livro é bem escrito, algo unanimemente apontado pelas críticas, a representação de Curitiba é tão boa quanto a de outro grande título paranaense que li no ano passado (Nós passaremos em branco, de Luís Henrique Pellanda) e é um bom romance de estreia – bom o suficiente para que fiquemos curiosos acerca do que o autor poderá escrever no futuro. E isso é o bastante para mim. Arthur Tertuliano

Dec 30, 2011

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Na lista dos preferidos

Na lista dos preferidos

Em duas oportunidades, Pequena biografia de desejos aparece no rol do que foi produzido de melhor em 2011. O cineasta Eduardo Baggio e a jornalista Mariana Sanchez fizeram suas listas. Acompanhe:

Eduardo Baggio:

Já que é mote de fim de ano falar o que de melhor aconteceu, aí vão minhas impressões sobre 2011:

Melhor filme: “Pater”, dirigido Alain Cavalier e “Vou rifar meu coração”, da diretora Ana Rieper
Melhor filme curto: “Ovos de dinossauro na sala de estar”, do Rafael Urban
Melhor livro: “Pequena Biografia de Desejos”, do Cezar Tridapalli
Melhor peça: “Os Altruístas”, texto de Nicky Silver e direção de Guilherme Weber
Melhor programa de rádio: “Radiocaoswww.radiocaos.com.br (esse acho que é o melhor de sempre e pra sempre)
Melhor CD: “Introdução à cortina do sótão”, do ruído/mm
Melhor clipe: Beastie Boys – Fight for your right www.youtube.com/watch?v=evA-R9OS-Vo
Melhor show: Sonic Youth (SWU) e Wolf People (Roundhouse)
Melhor programação geral: as dos Sescs de SP

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Já Mariana Sanchez, em seu www.orelhadolivro.com.br, destaca a produção literária paranaense em 2011. Fala de Pequena biografia de desejos e também da FLIM, a Festa Literária do Medianeira, evento com curadoria geral de Cezar Tridapalli. Confira abaixo a reprodução integral do post.

Por Mariana Sanchez       category: livro

2011 foi um ano bem especial para a literatura paranaense e tudo o que gira em torno dela: testemunhamos o nascimento do jornal da Biblioteca Pública do Paraná, o simpático Cândido, e o renascimento do projeto Um Escritor na Biblioteca; aplaudimos a conquista de dois prêmios Jabuti por dois curitibanos – na verdade, um deles radicado aqui -, Dalton Trevisan e José Castello; presenciamos a estreia da FLIM, como ficou conhecida a Festa Literária do Colégio Medianeira; conhecemos a nova livraria Arte e Letra e a primeira livraria Cultura de Curitiba – o paraíso distribuído em três andares.

Mas, para mim, o ano não teria o menor sentido sem a leitura destes livros:

Manual de putz sem pesares, de Luiz Felipe Leprevost (Editora Medusa, 2011)
“Para mariana, meus pequenos filminhos de terror”. Essa foi a dedicatória que o Leprevost escreveu na primeira página do livro, antes de entregá-lo para mim, numa tarde de janeiro no Lucca Café, antiga sede da Livraria Arte e Letra – mas poderia ter sido no Chuvaimóvel Café. E os 30 contos que ele nos apresenta são exatamente isso: filminhos de terror, na melhor atmosfera pulp: mistura de filme noir com pornochanchada brasileira. Sim, a clássica literatura de banheiro, e o que há de errado nisso? Afinal, “há momentos em que tudo o que um cara precisa é um pouco de pinga, coca e dança erótica”, como diz o conto homônimo dessa coletânea safada.

Amanhã. Com sorvete!, de Assionara Souza (7 Letras, 2010)
Ok, o livro é do ano passado. Mas meu primeiro contato com ele foi em abril de 2011, durante uma das leituras do projeto EntreMundos. Ou seja, antes de ler eu OUVI o texto de Assionara em voz alta, e é como devem ser lidos estes contos incrivelmente poéticos, sonoros, sensoriais. De Caicó a Curitiba, onde vive há mais de 2 décadas, Assionara imprimiu um estilo único à literatura “feita aqui”. Seu texto tem sabor, como um delicioso sorvete, provocando sensações diferentes a quem prová-lo com a ponta da língua. Os contos “Amoras frescas” e “Dentro da coisa” têm aquele tom melancólico sem perder o fino humor, como nos filmes da Miranda July. Por sinal, cinema aqui não falta. A começar pela divertida epígrafe do Jim Jarmusch.

Ocupado, de Adriano Esturilho (Editora Medusa, 2011)
Coleção de histórias curtas, sonoras, fragmentadas, experimentais, ambientadas em Curitiba, situadas entre a insônia e o pesadelo. Espécie de Georges Perec local, Esturilho cria uma obra onde a forma é revolucionária, anárquica e muito mais importante que o conteúdo. Para além do elaborado jogo de palavras, a nostalgia do Concretismo e do rock oitentista, Ocupado é uma jornada madrugada adentro pela cidade “pseudo-cosmopolita”, onde as notícias mais desgraçadas sempre chegam por telefone.

Pequena biografia de desejos, de Cezar Tridapalli (7 Letras, 2011)
Único romance da lista, o livro do Tridapalli é uma das melhores estreias literárias que já tive o prazer de ler. Maduro, profundo, envolvente e bem escrito são algumas das qualidades dessa pequena biografia, que narra a história do porteiro Desidério, aspirante a escritor. E agora você deu um longo suspiro, achando tedioso e previsível o fato de um livro de estreia tratar do próprio ato da escrita. Vá por mim, a obra é excelente, crítica, questionadora e cheia de sensibilidade. E mais que isso eu não digo, porque em breve sai a resenha que escrevi pra revista ler & Cia ;D

Nós passaremos em branco, de Luís Henrique Pellanda (Arquipélago editorial, 2011)
Um dos últimos que li neste ano, e é como se fosse um presente: o novo do Pellanda é, para mim, o grande livro de 2011. Entre 2009 e 2010, o autor publicou suas narrativas às quintas-feiras no site Vida Breve, que encerrou em 2011. As melhores crônicas foram selecionadas, algumas reescritas, outras renomeadas – uma acrescentada – e, agora, aparecem lado a lado neste volume. Lidas em sequência, elas formam o painel mais autêntico, atual e sombriamente poético de Curitiba, como um dia o fez Dalton Trevisan. Tudo acontece ali, entre as praças Osório e Santos Andrade, onde se espalham personagens invisíveis, demoníacos, ordinários: o homem com a menina no colo, os chupa-latas, o velho evangélico de coturnos, os fantasmas que assombram um edifício da Ébano Pereira, a Pequena Sereia da Boca Maldita. Flanar pelo centro da cidade nunca mais vai ser como antes, depois de ler as crônicas do Pellanda.

Sep 7, 2011

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Jornal literário Rascunho apresenta 10 novos romancistas brasileiros

Jornal literário Rascunho apresenta 10 novos romancistas brasileiros

Na edição 137 do jornal de literatura Rascunho - um dos principais veículos em mídia impressa exclusivos de literatura no Brasil -, uma matéria especial com 10 novos romancistas brasileiros. Pequena Biografia de desejos aparece na lista ao lado da produção de outros 9 autores. O jornal dedica uma página para cada novo romancista, na qual há um artigo apresentando a obra e uma entrevista com 3 perguntas em comum.

 

Para ter acesso à íntegra do jornal na sua versão em pdf, clique aqui.

Você pode também ir d ireto para a matéria “A reinvenção da vida“, na qual a professora Vilma Costa apresenta Pequena biografia de desejos.

 

Os 10 autores apresentados são (em ordem alfabética):

- Arthur Martins Cecim, com Habeas asas, sertão do céu (Record, 272 páginas)

- Bráulio Mantovani, com Perácio – relato psicótico (Leya, 224 páginas)

- Cezar Tridapalli, com Pequena biografia de desejos (7Letras, 220 páginas)

- Eliane Brum, com Uma duas (Leya, 176 páginas)

- Gabriela Guimarães Gazzinelli, com Prosa de papagaio (Record, 176 páginas)

- Javier Arancibia Contreras, com O dia em que eu deveria ter morrido (Terceiro nome, 144 páginas)

- Karleno Bocarro, com As almas que se quebraram no chão (É Realizações, 338 páginas)

- Marcelo Cid, com Os unicórnios (7Letras, 166 páginas)

- Oscar Nakasato, com Nihonjin (Benvirá, 175 páginas)

- Ronaldo Wrobel, com Traduzindo Hannah (Record, 270 páginas)

 

 

 

Sep 1, 2011

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Conversa com alunos da escola Durival Britto e Silva

Conversa com alunos da escola Durival Britto e Silva

A convite da equipe pedagógica da escola Durival Britto e Silva, conversamos com alunos jovens e adultos. O bate-papo começou em torno da obra “Pequena biografia de desejos”, mas estendeu-se para o universo mais amplo da leitura. Um saboroso flashback dos tempos em que era professor. Ao final, ainda assistimos a alguns vídeos do projeto Sujeitos Leitores, do qual participo dentro de minhas atividades profissionais.

 

 

Um abraço agradecido à equipe da escola (escola cuja estrutura desmente a imagem que a maioria de nós tem sobre educação pública).

Cezar Tridapalli

Aug 5, 2011

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Crítica no jornal cultural InterrogAção

Crítica no jornal cultural InterrogAção

Publicado originalmente em 4/8/2011 no ?InterrogAção, o texto é de Emanuela Siqueira.

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Uma das características mais marcantes da Literatura produzida hoje é justamente o bom uso do realismo do dia a dia — considerado outrora um objeto sem ânimo e interesse — como um contexto rico. O curitibano Cezar Tridapalli, em Pequena Biografia de Desejos (Editora 7Letras, 2011), traz a vida comum e seus personagens como forças motrizes para dentro do romance, dando mais sinais de como a literatura do presente vem rendendo frutos extremamente interessantes, alimentados pelo anonimato do cotidiano.

Desidério é um porteiro que leva uma rotina insignificante para a maioria das pessoas, o homem pega o mesmo ônibus todo dia — para quem mora em Curitiba, o famoso Ligeirão-Boqueirão — e passa inúmeras horas acordado, lendo e escrevendo. O personagem principal de Pequena Biografia de Desejos é uma espécie de anti-herói, só que sem nenhum tipo de glamour que esses personagens costumam ter, construido sob o perfil de homem comum visto pelos olhos do fantástico.

O protagonista se apresenta através das narrativas de suas próprias mazelas costuradas com a história de outros personagens que ajudam a dar forma na sua vida-ficção. A mãe que foge de casa, um pai que só existe fisicamente, um casamento sem o mínimo de amor e os sonhos de escrever livros tão geniais quanto os que passa as madrugadas lendo, são pequenas peças que formam detalhadamente o enredo da vida do personagem.

Desidério poderia ser um homem comum se os livros não o tirassem do marasmo do cotidiano. Sonhador, sua realidade — desde sempre urbana e crua pela ótica do realismo banal — sempre foi moldada conforme o lirismo dos livros. É o homem comum, sem ostentações, mas repleto de mecanismos que o tiram do conformismo e o colocam dentro de um realismo fantástico, um dos aspectos que introduz Pequena Biografia de Desejos como uma obra que se alimenta do contemporâneo sem precisar, em momento algum, ser confessional. Pelo contrário, Desidério não quer confessar nada, nem sabe usar as palavras faladas, ele suprime seus sentimentos e acredita que a sua real redenção sejam as palavras escritas e num livro só seu.

É principalmente a paixão e o desejo que movimentam a vida de Desidério. Além de ter um fascínio desmedido por livros — o homem chega a escrever trechos de livros na mesa da guarita — ele encontra Adele, uma professora de italiano, que alimentando um amor platônico involuntário, ainda o encoraja a escrever sobre todos os sentimentos que ele acreditava não possuir.

A narrativa de Pequena Biografia de Desejos é movida justamente por essa paixão e desejo literário que o protagonista desenvolve ao longo das suas leituras. O narrador faz uso de uma voz íntima que funciona como um off cinematográfico, apresentando a vida dos personagens com direito a flashbacks. A cada capítulo, novas histórias vão sendo apresentadas e costuradas ao mosaico que forma a grande biografia de Desidério. Sem as personagens — e suas insignificâncias detalhistas associadas a um e outro enredo literário — o protagonista jamais existiria e encararia com tamanho desejo a sua própria ficção.

O espaço onde circula o personagem é Curitiba, um ponto interessante se pensado sob a situação que boa parte dos romances contemporâneos se organizem em outras metrópoles do país. A Curitiba de Desidério é descrita pelo ponto de vista de um eterno transeunte que conhece bem apenas o bairro em que viveu, o trajeto que faz há tanto tempo de casa para o trabalho, e vice-versa, e claro, a Biblioteca Pública do Paraná.

A voz que Tridapalli faz uso é sufocadora, direta e repleta de referências, o que pode não agradar leitores receosos com o romance contemporâneo. Pequena Biografia de Desejos lembra obras ao estilo de Henrique Vilas-Matas, Saramago e o fantástico — mais moderado — das realidades latinas de Gabriel Garcia Màrquez e mesmo assim, mantendo sua própria construção. Há uma necessidade de respiração depois de cada capítulo na saga de Desidério, o que fez minha leitura ter contado com boas pausas entre um capítulo e outro, sendo que isso não é de forma alguma um problema e sim um ótimo processo de assimilação. Além disso, é bastante lírico e atual o discurso sem pausa e caótico da obra que, mesmo usando muitos recursos de linguagem contemporânea, mantém o ritmo romanesco clássico.

Pequena Biografia de Desejos nem de longe parece um romance de estreia. É uma ode — e isso é o que mais encanta — às paixões e desejos que os livros podem causar. É sobretudo, um romance sobre livros para leitores apaixonados.

 

Seguem alguns trechos do livro:

¨Qual a marca que o porteiro de um edificio deixaria no mundo? Pensara no livro que havia começado e, com estranho alivio, enfim lhe subiu à face a esperada sensação de tristeza autêntica, doída. Qual a marca que aquele cara que escreveu O deserto dos Tártaros deixara no mundo? Qual a marca que os quarenta e dois autores lidos por Desidério até ali deixaram no mundo, no seu mundo? A resposta lhe parecia evidente, óbvia demais; no entanto, sentia-se envergonhado e quase enfurecido por não saber o que responder, pois, ainda que dissesse que as obras desses autores fossem suas marcas, uma voz interna insistia em propor outra pergunta: mas para que servem essas marcas? Ora, para nos lembrar de que estamos vivos, de que o show tem que continuar, e que as ilusões devem continuar sendo alimentadas, e que precisamos continuar nos perguntando para que serve tudo isso.¨ (pg. 90 e 91)

¨Assim se arrastam os desejos humanos, às vezes céleres, sorridentes e fagueiros como crianças no campo ou propagandas de margarina, às vezes entrevados, cujos movimentos únicos parecem ser fasciculações involuntárias. De uma forma ou de outra, compreendidos todos os matizes possíveis nesse entremeio, estão sempre morrendo sem se terem satisfeitos.¨ (pg.218)

 

Jul 14, 2011

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Entrevista para o Jornale

Entrevista para o Jornale

No início dessa semana, foi realizada longa entrevista sobre o Pequena biografia de desejos para o jornal de notícias on-line Jornale. A reportagem que foi a público pode ser lida clicando aqui, com uma reprodução parcial da entrevista concedida.

Abaixo, coloco a entrevista na íntegra:

 

 

JORNALE – Como surgiu a ideia de escrever “Pequena Biografia de Desejos”?

TRIDAPALLI – Sabe quando o dia-a-dia comezinho te engole? Você acha que tudo é prioridade, menos os teus grandes projetos de vida – esses sempre podem esperar. De repente, ir ao mercado é mais importante do que começar a planejar um livro (afinal, é preciso comer); aí os projetos de maior fôlego e realização pessoal ficam agendados para começar amanhã. Mas é que amanhã é sempre depois. O amanhã, quando for hoje, já guardará outros amanhãs sempre prontos para serem postergados. E com os projetos de vida, que são, digamos, de longo prazo, esse amanhã se transforma em mês que vem, em ano que vem, ou quando nos aposentarmos. E assim nos arrastamos muitas vezes, achando que o presente nos abafa, mas o futuro nos reserva grandes planos. Porém, nos esquecemos de que sonhar não basta, é preciso trabalhar para tecer futuros mais ou menos controláveis – já que o controle total é impossível. Então esse duelo entre a vida sonhada e a vida realizada sempre foi uma coisa que me chamou a atenção. Anos depois de ter lido O deserto dos tártaros, do Dino Buzzati, é que eu fui perceber por que eu tinha gostado tanto daquele livro. Sonho e realização podem conviver muito bem quando a segunda completa a primeira e começam a se retroalimentar. Mas quando o sonho fica patinando, e não sai disso, e a gente se contenta com ficar projetando, sonhando, imaginando, aí o imaginário vira prisão. Enfim, é esse debate todo que foi parar nas páginas do Pequena biografia de desejos. O conflito entre sonho e realização é que fica se contorcendo por lá. Essa é uma das chaves para se ler a obra. Acredito que haja outras ainda.

 

JORNALE – Quais motivos o levaram a escrever sobre a classe trabalhadora e o que o levou a esta abordagem psicológica?

TRIDAPALLI – Eu não daria essa ênfase ao fato de o personagem central ser de classe social humilde. Pequena biográfica de desejos não é, definitivamente, um romance político – pelo menos não no sentido panfletário ou de luta de classes. As lutas acontecem mais no âmbito individual, dentro de cada um. Aprendi muito com a literatura a imaginar que as nossas máscaras nem sempre correspondem àquilo que se passa dentro da gente. Isso não quer dizer que sejamos necessariamente falsos, hipócritas etc, embora tenhamos uma vontade atávica de mostrar ao mundo sempre o melhor de nós, escondendo pequenas e grandes incoerências embaixo do tapete. Desidério, o protagonista, parece que subverte um pouco isso, já que é uma pessoa melhor “por dentro” do que aparenta ser “por fora”. Então o que me interessou, mais do que criar um personagem de determinada classe social, foi quebrar alguns estereótipos que costumam colar uma identidade fixa a determinadas máscaras. Vamos pensar quais estereótipos rondam a nossa cabeça quando pensamos em um porteiro de edifício? “Porteiro de edifício” é um nome, um título, uma etiqueta grudada na testa, uma máscara, mas isso não diz nada – ou diz pouco – sobre o homem que se esconde por trás do rótulo. Por que não tentar investigar as profundezas desse homem, essa parte imensa do iceberg que fica submersa e que o distingue de todos os outros homens, porteiros e não porteiros? Desidério poderia ser qualquer rótulo, de qualquer classe social. Eu buscaria fazer a mesma coisa, independente de ser ele pobre ou não: trazer à tona características que o tornam singular e compartilhar essa experiência tão íntima dele com o leitor, que, espero, saia enriquecido desse encontro.

 

JORNALE – Quais são os seus autores preferidos? A obra de algum deles influenciou na escrita de “Pequena Biografia de Desejos”?

TRIDAPALLI – Embora se espere originalidade de um escritor, não vou conseguir ser original nessa resposta. Dos autores mais antigos, no Brasil eu ficaria com Machado de Assis; fora do nosso país, eu citaria Dostoievski. A agudeza na forma de prender a respiração, mergulhar nas personagens e emergir trazendo nuances até então veladas de comportamentos e modo de ser é algo que sempre me impressionou neles. Aliado a isso, existe um humor tão sutil, daqueles que a gente nem chega a sorrir externamente, mas que aciona um dispositivo interno que nos diverte. O próprio Dostoievski tem um romance menos conhecido chamado A aldeia de Stiepântchikov e seus habitantes que é divertidíssimo e faz um desfile de personagens que mostra bem como é a tal fauna humana (risos). O Triste fim de Policarpo Quaresma, do Lima Barreto, é também uma obra que me chama atenção por conter um tipo de humor que, no final, nos deixa constrangidos pelo fato de termos rido. É um personagem engraçado pelo idealismo tresloucado, mas que, à medida que seu triste fim se aproxima (não estou estragando a história contando ao leitor que ele tem um triste fim, não é? O título do livro já o entrega!), a gente engole seco aquela risada do início. Dalton Trevisan também me dá a impressão de que quer provocar riso e nos deixar mal por isso. Então, passando para autores mais contemporâneos, eu também não consigo ser original: Ian McEwan, Philip Roth, Enrique Vila-Matas. Recentemente, um amigo meu disse que o meu livro tinha muito a ver com A elegância do ouriço, da francesa Muriel Barbery. Fui ler. Gostei e realmente percebi alguns pontos de contato, principalmente pelo fato de haver uma personagem que desmonta os estereótipos que se podem ter em relação a ela. Enfim, claro que existem outros autores, mas esses foram o meu top of mind.

 

JORNALE – Algum movimento literário foi importante para sua formação como escritor e decisivo no desenvolvimento de seu estilo pessoal?

TRIDAPALLI – No início eu pretensiosamente pensava estar escrevendo um romance bem machadiano. Quando eu ia reler, aquilo que eu julgava humor fino se revelava uma patetice imensurável. Desanimei e vi que nem pra copiar eu servia. Fiquei muito tempo sem tocar no livro. Tempo demais, até. Quando o retomei, percebi o quanto escrever todo dia era importante e refazer aquela parte já escrita foi muito penoso. Escrever com regularidade é que te faz perceber como se desenvolve um estilo. Não tem nada de mágico no sentido literal do termo, mas é uma experiência muito singular ir percebendo o jeito como as frases vão se moldando e começam a esculpir o texto de um jeito quase automático. Não é um surto psicótico, mas, quando a coisa engrena, é como se uma voz interior te mandasse dar determinado ritmo para a frase, fazendo-a curtinha, outras vezes mais longa, te dizendo que não precisa daquela vírgula – por mais que a gramática normativa exija –, misturando a voz do narrador com o discurso direto do personagem. É algo meio indefinido que começa a ditar certa pontuação, certo ritmo. Algum escritor mais experiente talvez sorria com o canto da boca e pense “eu também não conseguia definir isso no início”. É isso mesmo, eu não consigo definir muito bem, mas não quero cair nessa de, por não conseguir explicar, acabar dizendo que “é algo mágico”. Então, voltando à pergunta, acho que não existe um movimento literário específico que determinou a linguagem, mas todos os autores lidos, de uma forma ou de outra, ficam dançando na cabeça da gente até que o movimento dessa dança os faça ficarem borrados, misturados e virarem uma massa informe e impossível de identificar nominalmente, individualmente. São todos ingredientes, mas o prato é a gente que faz.

 

JORNALE – Por que você escolheu ambientar a narrativa em Curitiba? Como você vê a cidade e seus moradores e qual o impacto dessa visão em sua obra?

TRIDAPALLI – Se não me engano, existe aquela história do José de Alencar, que escreveu O gaúcho sem nunca ter pisado no Rio Grande do Sul. Como eu escrevo o romance dentro de um registro realista, acho Curitiba uma cidade-personagem muito peculiar (embora ela sirva apenas de cenário ao meu livro), nasci e vivi sempre aqui, não tem por que a história se passar em outra cidade. Se a pergunta é por que escolher Curitiba, eu respondo com outra pergunta: por que não escolher Curitiba? Como a literatura, do meu ponto de vista, trabalha com a desconstrução do estereótipo, acho difícil caracterizar a cidade com uns poucos adjetivos, como se eles representassem o todo. Ah, o curitibano é assim, o curitibano é assado acaba dando poder muito grande a esse rótulo, como se fosse capaz de representar todo o indivíduo, todas as inúmeras subjetividades que estão sob o rótulo de “curitibanos”. O que eu sei é que gosto da cidade, o que não significa que só tenha elogios a ela. Gosto e torço para que seja melhor, muito melhor, para que não se transforme numa convergência dos piores defeitos das colônias com os piores vícios das metrópoles.

 

JORNALE – Qual é o público-alvo ao qual você direcionou a sua obra e por que escolheu dialogar com este determinado público?

TRIDAPALLI – Acho que qualquer pessoa alfabetizada, que tenha um pouco de intimidade com a língua escrita pode ser leitora desse e de outros livros. As leituras serão diversas, claro, uma vez que o leitor, além de retirar sentidos do texto, também coloca sentidos nele por causa do seu repertório de vida e de leitura. Espero que a obra dê margem a múltiplas leituras, sinal de que se trata de literatura e não de autoajuda, que precisa ter um sentido mais pronto, uma “mensagem” ou ainda uma moral da história. Já tive leitor de 14 anos e outro de 65. Até onde eu sei, esses foram os extremos. Talvez haja ainda outros mais jovens ou mais velhos, não sei. Tomara.

 

JORNALE – O que você espera despertar nos leitores com sua obra?

TRIDAPALLI – Uma mistura paradoxal entre identificação e estranheza é o que a boa literatura sempre me causou. Quebrar alguns estereótipos – ou usá-los para subvertê-los – é um exemplo de estranheza, de ruptura com as expectativas e modelos que trazemos em nós. Perceber que esse ser estereotipado ganhou vida interior, vida própria e que ela é cheia de sonhos, de projetos, de ruminâncias de sensações e pensamentos faz com que cotejemos a vida do personagem com a nossa. Algumas coisas rejeitamos, outras acolhemos. Esse processo é o que eu chamo de identificação. Nós temos um mundo de certezas e incertezas dentro da gente. O livro também traz isso dentro dele e, desse atrito entre mundos, saímos diferentes, modificados de alguma forma justamente por esse jogo de estranhamentos e identificações. Se Pequena biografia de desejos conseguir isso, ainda que de leve, eu já começaria a ficar satisfeito. Se o livro ainda conseguir fazer isso com – ou por meio de – alguns requintes de linguagem, melhor ainda.

 

JORNALE – Como você vê a literatura brasileira contemporânea e seus leitores? O que você espera para o futuro desta área artística e cultural e como você vê sua obra inserida neste contexto?

TRIDAPALLI – Tem muita coisa boa, né? Quando eu ensinava literatura brasileira, algumas vezes trabalhávamos identificando movimentos, tendências desde o final do século XVII, passando por arcadismos, romantismos, realismos e modernismos, engavetando as escolas literárias. Acho que é uma simplificação fazer esse tipo de classificação, mas ajuda em certa medida. Quando penso na literatura contemporânea, tenho curiosidade de saber como os historiadores vão se referir à época atual daqui a cem anos, se eles terão que simplificar e conseguirão identificar algum fio condutor temático/estilístico que dê unidade a tanta diversidade. Pena que não estarei mais aqui pra matar minha curiosidade. Mas é um leque tão grande de coisas sendo escritas, não? Vamos ver o que sobreviverá.

Quanto aos leitores, hoje tem mais gente alfabetizada, as classes sociais mais pobres estão tendo acesso à escola, o que é bom. Claro, a quantidade está sendo resolvida, mas a qualidade ainda é uma tristeza danada. E a literatura tem um quê de sofisticação que demanda certa habilidade do leitor. Não quero ser arrogante ao dizer que “só os bons” leem literatura, nada disso, só estou dizendo que, para ler certa literatura, existem recursos de linguagem que precisam ser dominados e pelos quais o leitor deve passear com desenvoltura. E isso, infelizmente, não é uma realidade no Brasil. No Brasil de qualquer classe social. Temos uma elite que também não é leitora, que é tosca mesmo, que não consegue se pensar em relação ao outro e ao seu país. E todos perdem com esse não acesso: os autores, os editores, livreiros, leitores que não são bons leitores etc. Mais uma vez vou usar o recurso do clichê, sem nenhuma originalidade: é a educação que pode melhorar esse quadro todo, para que a literatura não seja o privilégio de um gueto, de uma igrejinha com poucos seguidores. E a educação passa pela escola, mas vai além dela, com a facilitação do acesso aos bens culturais, inclusão digital, essas coisas todas.

Quanto à minha obra nesse contexto, que é a quarta parte da tua pergunta, eu a vejo com reserva e modéstia. Claro que quero ser lido, mas o meu temperamento sempre me conduziu para o caminho que evita deslumbramentos. Sou péssimo marqueteiro da minha obra, não consigo chegar nas livrarias e pedir para organizar bate-papos, sou tímido pra caramba na hora de falar formalmente sobre qualquer assunto, sempre vou pedir para dar entrevista por escrito (risos), essas coisas todas. Então, tudo isso faz com que eu nutra a expectativa de que a obra consiga transitar por si própria, a despeito do seu autor. Não é charme, não é jogo de cena. É uma inaptidão mesmo, que, de repente, até pode prejudicar a sorte do livro. Mas não vou conseguir mudar meu jeito de ser. Tomara que o Desidério consiga levar o livro adiante. Ou melhor: tomara que o narrador consiga levá-lo adiante, já que o Desidério é outro tímido que fala ainda menos do que eu.

 

A entrevista foi concedida a Cássia Lorenza.

Jun 30, 2011

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Pequena Biografia de Desejos, por André Tezza Consentino

Pequena Biografia de Desejos, por André Tezza Consentino

“Romances de estreia, em geral, são aqueles que depois da maturidade o escritor se arrepende e recusa a paternidade. E esta é a primeira grande qualidade do romance de Cezar Tridapalli: é um livro maduro, envolvente, de um vigor narrativo que só encontramos em escritores com mais tempo de estrada. Mas as qualidades vão além. É um olhar singular sobre o Brasil, a partir de Curitiba, esta cidade que desde Dalton Trevisan soube construir uma escola literária muito peculiar, de distanciamento, racionalidade e um fino humor.”

(…)

“Nesta tradição, Pequena biografia de desejos apresenta tanto o Brasil privilegiado quanto o país de uma imensa maioria de trabalhadores anônimos, aqueles que dificilmente são protagonistas do imaginário da classe leitora brasileira. Mas não se engane: não é um romance dedicado à pedagogia ou à defesa de bandeiras políticas — como toda grande literatura, o livro de Tridapalli aposta, como fio narrativo primordial, na investigação da condição humana mais atemporal e mais livre de demonstrações de teses ou teorias.”

(…)

“Finalmente, é um livro escrito dentro da tradição literária contemporânea mais preocupada em saber contar uma boa história do que em revolucionar a linguagem — do mesmo modo que escritores como Ian McEwan, Philip Roth ou J.M. Coetzee, Tridapalli não está buscando a ruptura formal obstinada, talvez porque hoje, mais do que em qualquer momento do século passado, desconfiemos da eficiência da vanguarda. O incômodo, aquilo que a grande literatura descortina, pode estar em qualquer plataforma, inclusive apartada da vanguarda. E como qualquer escritor sabe, não há nenhuma facilidade aqui: saber contar uma boa história, com ritmo e vivacidade, é algo muito difícil. Por isto mesmo, a estreia de Cezar Tridapalli não passará desapercebida”.

(André Tezza Consentino é publicitário, professor de Ética Publicitária e coordenador do Curso de Publicidade da Universidade Positivo, em Curitiba. Especialista em Leitura de Múltiplas Linguagens, é mestrando em Filosofia – UFPR).

 

Jun 30, 2011

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Pequena Biografia de Desejos, por Maria Célia Martirani

Pequena Biografia de Desejos, por Maria Célia Martirani

“O livro agrada muitíssimo porque traz a leveza como uma de suas marcas fundamentais, tal como indicada por Italo Calvino em Seis propostas para o próximo milênio. E os procedimentos narrativos dos quais o autor lança mão para atingi-la em nenhum momento vacilam ou sinalizam falta de profundidade.”

(…)

“Muita coisa acontece, mas sempre com o olhar do narrador, que é muito pirandelliano, capaz de induzir à comoção, ao mesmo tempo em que nos faz perceber o ridículo de cada situação. Estamos, quase sempre, diante de situações em que um olho chora ao mesmo tempo em que o outro ri. Enfim, a palavra-chave para melhor traduzir o que senti pulsar na obra:ambigüidade, construída por meio de uma refinadíssima ironia”.

(…)

“Às biografias dos personagens que abrem vários capítulos se juntam todas as outras que, a um certo ponto, se tocarão para preencher o desenho do mosaico final, uma vivíssima composição, plena de diversidade e histórias que se comunicam, que se entretecem”.

(…)

“Impossível não notar, em Pequena biografia de desejos, o diálogo intertextual que se estabelece com o grande romance de Dino Buzzati: O deserto dos tártaros. Desidério – o protagonista do romance – resiste em sua guarita de porteiro, tal como Giovanni Drogo, de Buzzati, no forte Bastiani. Ambos, cada qual com seu desejo, esperam pela batalha final… Toda uma vida à espera…”

(Maria Célia Martirani é escritora, doutora em Literatura da USP, autora de Para que as árvores não tombem de pé (contos) – Travessa dos Editores).